Espiritualidade
Um misterioso
processo de incorporação:
Pelo mistério
da sua Encarnação, Cristo nos incorporou Nele. Desde
aquele momento, nós estamos em Cristo. Quando o Pai vê
o Filho, Ele vê Nele o homem que nós somos, e quando
Ele vê o homem ou a mulher que somos, Ele vê o Seu Filho,
o Seu Único. Somos os ramos da videira. Somos os membros
do corpo. Somos as pedras da casa. Recebemos a nossa vida Dele.
No sentido mais forte que se possa imaginar, Ele nos acolheu Nele,
Ele viveu a hospitalidade de maneira mais perfeita, dando lugar,
Nele mesmo, à humanidade pecadora para que ela participe
da santidade do Seu Nome e tome parte do Seu Corpo glorioso.
Aquele
que se compromete na obra Pontos-Coração entra, dum
modo muito radical, neste misterioso processo de incorporação;
ele responde ao apelo recebido de viver a compaixão e a hospitalidade
da maneira em que Jesus viveu. E isso não é pouca
coisa.
Ele se
encarna dentro de um povo, ele se deixa ferir por esta carne ferida,
ele se deixa também transfigurar por ela. Ele não
vive com o povo dele. Ele vive dentro do povo dele.
E se ele pode dizer: “Eu vivo, mas já não
sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gal.2,20),
ele também pode dizer: “Eu vivo, mas não
sou mais eu, é o meu povo que vive em mim.” É
o meu povo que me habita. É o meu povo que se torna os meus
olhos e o meu coração. Assim, tem analogia entre o
que a Igreja é para Cristo e o que o povo é para cada
um dos Amigos das crianças.
Naturalmente,
não basta pisar o chão de Bucareste ou de Bangalore
para que surja tal acontecimento. Um Amigo das crianças,
quando chega, não chega ao povo dele. Ele se torna este povo.
Isso é a constante tensão da vontade dele, é
a esperança do amor dele. A aliança que o Espírito
de Deus realiza entre cada um dos Amigos das crianças e aqueles
que se tornam seus amigos vai se concretizando com o tempo, numa
história comum, no descobrimento de que a história
do outro - mesmo se tantas circunstâncias fazem com que pareçam
bem diferentes - são antologicamente idênticas e que
eu compartilho com todo homem uma mesma comunidade de destino que
faz com que sejamos realmente um corpo, o Corpo de Cristo.
É
fácil jogar bola com um menino – mas a gente não
veio para ser professores de esportes –, é mais ou
menos fácil fazer tramites para alguém achar trabalho
– mais não somos assistentes sociais –, contudo,
é difícil praticar essa hospitalidade do coração
que é o sentido mesmo da nossa missão e manifesta
tão bem o mistério do Esposo e da esposa. Escutamos
as palavras do padre Giussani:
"Os
outros devem ser “acolhidos” dentro de nós:
a hospitalidade consiste em permitir a um outro fazer parte de
nossa vida. Mas cuidado! A hospitalidade é o maior sacrifício
depois do dom da vida. É por isso que fica tão difícil
para nós dar realmente a hospitalidade, e dar a hospitalidade
a nós mesmos. Fazer com que os outros se tornem uma parte
de nossa vida, isso é a verdadeira imitação
de Cristo; Ele nós acolheu na vida Dele a ponto de nos
fazer membros do corpo Dele. O mistério do Corpo de Cristo
é o mistério do acolhimento da nossa vida na dele[1]."
Nesta
hospitalidade radical do pobre, da criança, de toda pessoa
humana que toma a forma da Encarnação, de repente,
a presença divina se manifesta. Quando acolhemos o homem
no mais profundo das nossas entranhas de homem, quando o acolhemos
como membros do nosso corpo, nós encontramos Deus: “Achar-se
em casa no coração de um outro significa experimentar
concretamente o amor, o amor de um irmão ou de uma irmã
em Cristo. E experimentar o amor de um outro significa tomar consciência
de que Deus nos ama. Pois é através do outro, o nosso
próximo, o nosso irmão, que podemos começar
a compreender o amor de Deus[2].”
Não
temos palavra para expressar esta chispa que arde o nosso coração.
Encontramos Deus carregado do peso da nossa humanidade, é
tudo! É a razão pela qual Pontos-Coração
é uma aventura que alguns poderiam qualificar de perigosa.
Pois, como toda visita de Deus, como tudo surge de uma plenitude,
é um convite a mais. Aquele que percebeu
o rosto de Deus não pode mais descansar. Só uma nova
visita da graça pode satisfazê-lo; só a fidelidade
à aliança que Deus criou entre nós e o povo
dele. O Verbo não esposou a nossa humanidade como se fosse
uma brincadeira. Ele não a esposou por apenas um tempo. Ele
se deu em comunhão. Ele se dá em comunhão.
Ele se dará em comunhão. O homem que esposa um povo
fica como que marcado para sempre do sinal deste povo e, reciprocamente,
lhe dá a cor, o rosto do seu amor. Ele vai ter que se deixar
comer inteiramente!
(1)Luigi
Giussani - Le rique Educatif Nouvelle Cité, Paris, 1987 pp
18-19 (2) Catherine de Hueck - O Evagelho sem Restrições.
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