• Pontos Coração

Alícia, voluntária no Honduras conta:


“Tudo está ao serviço do amor. O resto, todo o resto, me parece vento”

Amados padrinhos,

Minha comunidade segue tendo mudanças, no final de abril chegou o Amadeusz (Polônia) e a Karolina (Polônia) já está nos últimos dias da sua missão, logo nos tornamos novamente quatro missionários.

Todas as quintas-feiras temos apostolados, uma no asilo e outra nos dividimos, entre a prisão feminina e o hospital psiquiátrico (o qual eu fui só uma vez). Visitamos um asilo para descapacitados, por isso muitos de nossos amigos nunca saem das suas camas. Eu poderia contar as histórias de muitos amigos, mas entre todos se destaca Don Bernardo, o qual vive há mais de 20 anos no asilo. Ele é tetraplégico, sendo completamente dependente de ajuda. Mas infelizmente o lugar não está em condições adequadas e alguns dos anciãos não possuem os cuidados merecidos.



Para ter seu próprio dinheiro ele vende guloseimas na frente do asilo, nenhum dos funcionários o ajuda levar seu carrinho de vendas, então a cada dia ele paga para alguém o ajudar, menos nos dias que vamos. Levar seu carrinho é verdadeiramente uma aventura, pois é muito grande e pesado, uma das minhas maiores conquistas foi saber levar tranquilamente. Também o ajudamos a trocar suas roupas de cama, a subir na cama, fazer um café. Don Bernardo é um dos homens mais agradecidos que eu já conheci, reconhece completamente sua dependência, mas a cada visita fica totalmente reconhecido e maravilhado com a ajuda que parece pequena, mas que para ele possui grande significado, tanto que sempre nos presenteia frutas ou doces.

Apesar de tantas dificuldades Don Bernardo nunca lamenta sua situação, nos diz que prefere viver com todos os sofrimentos da terra para no fim ganhar a vida eterna. Com sua própria vida nosso amigo nos ensina o Evangelho: “Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” Mc 8,36

A cada visita no presídio feminino me sinto um pouco transformada, a maioria das amigas que tenho não conheço as razões das quais estão ali, mas isso não importa, porque somos chamados a olhar sua humanidade. Se encontram mais de 1000 mulheres, algumas deprimidas, principalmente por estarem longes de seus filhos, mas também muitas encontraram ali sua fé, com testemunhos de “Deus me colocou aqui para uma vida nova e não reclamo de estar aqui, porque Ele sabe o tempo necessário para tudo”.

Em meus primeiros dias achava que seria um apostolado difícil, que as mulheres não iam querer nos receber, mas temos muitas amigas e por isso fazemos visitas muito curtas a cada uma e mesmo assim não conseguimos estar com todas. Elas sempre nos recebem com um sorriso de uma amiga que espera a outra e algumas choram quando nos veem, principalmente por saberem que foram lembradas, outras saem correndo ao nosso encontro. Toda visita reservo um tempo para falar com Jeny, uma das minhas amigas mais especiais de toda a missão. Em minha segunda visita encontrei uma mulher tão triste que me chocou, no início fiquei com vergonha de me aproximar e segui o caminho, mas ela continuou em minha cabeça e resolvi voltar e conversar, no começo ela estava muito fechada só me perguntava o que eu fazia ali e porque entre tantas, tinha escolhido falar com ela, porém eu também não sabia responder a essas perguntas. Me contou que tinha uma amiga a qual já estava livre e ela se sentia tão sozinha agora que estava tomando medicamentos muito fortes para passar todo o dia dormindo, depois disso, consegui responder sua pergunta: Deus não nos quer sozinhos, todos necessitam de um amigo. Então nossa amizade começou, a cada 15 dias Jeny se senta no mesmo lugar esperando minha visita. Jeny é uma das minhas maiores graças da missão, com conversas de 20min quinzenal me esforço para transmitir um pouco do amor de Deus, que ama a todos incondicionalmente sem olhar seus pecados e defeitos e aos poucos percebo suas mudanças.

Como contei na minha última carta, temos um grupo de jovens que sempre frequentam nossa casa, temos toda sexta-feira Escola de Comunidade, onde compartilhamos um texto católico. Cada amigo tem seu caminho de fé, mas todos reclamam de ter uma vida monótona. Por isso resolvemos cada mês fazer algo diferente, vendemos terços para ir na praia, fazemos caminhadas.

E como aqui não se celebra Festa de São João preparei uma noite caipira com quadrilha, decoração, comidas e jogos típicos. Os jovens desfrutaram muito a festa e foi para mim uma graça dividir minha cultura.

Todo Ponto Coração possui uma criança que chega todo o tempo, nós temos João Alberto nosso amigo de 33 anos e coração de criança. Ele visita Pontos Coração desde a fundação. Minha amizade com ele começou por uma brincadeira de quem é melhor: Brasil ou Argentina, já que ele é totalmente apaixonado pela Argentina e nunca deixa de me incomodar por ser brasileira. Sua presença já é muito familiar em nossa casa, com suas piadas nos ajuda a preparar o jantar, consertar algo, afiar as facas. Desde que o conheci sabia que tinha uma vida difícil, sua aparência e vocabulário, com muitas gírias e frases sem sentido, não escondem a vida que tinha. Apesar de no começo não conhecer sua história sabia que em seu coração não tinha maldades.



Um dia em lagrimas nos contou sua história, aos 14 anos começou a usar drogas e logo se foi do país para trabalhar como traficante. Vivia em boas condições, até que percebeu que o dinheiro sujo não vale, tudo gastava com vícios, mas pelo amor e respeito a seu pai deixou tudo e voltou a Honduras. Há quatro anos seu pai morreu durante um assalto, deixando uma grande tristeza em seu coração, mas a certeza de querer uma vida honesta, a qual não é tão fácil devido à falta de trabalho e assim faz alguns serviços como pedreiro de forma informal.

Sabemos que nossa casa para ele é um refúgio, um lugar de seguridade. João não se sente digno de se aproximar de Deus, mas sempre reza conosco, frequenta as Escolas de Comunidade e Noites de Adoração, sabemos que assim está começando seu caminho a Deus.

Padrinhos, confio Joao e todos os amigos do apostolado em suas orações,

Com amor e carinho,


Alicia Jablonski de Oliveira



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