• Pontos Coração

"Em verdade vocês foram apenas a luz para eu encontrar a verdade e a minha liberdade."

Alícia nos conta de novo sobre a sua missão no Honduras:


“Somos julgados tristes, nós que estamos sempre contentes; indigentes, porem enriquecendo a muitos, sem posses, nós que tudo possuímos!” 2Cor 6, 10


Queridos padrinhos,

Um ano se passou desde que embarquei para o Honduras, com o coração cheio de alegria, mas também de medo e curiosidade. Um ano que cheguei no país que me conquistou, através do olhar e do sorriso daqueles que aqui me esperavam. Um ano repleto de graças incontáveis e por isso só tenho gratidão com vocês que fazem da minha missão possível, já que não se cessam de rezar e contribuir comigo.


Em minha primeira carta contei um pouco da minha rotina em Pontos Coração e apesar das atividades que realizo serem as mesmas, o jeito como as faço mudou por completo. O tempo que tinha para os amigos do bairro eram nas visitas em suas casas, mas agora acontecem todo o tempo: o simples fato de ir comprar pão se tornou em um apostolado, o que poderia ser feito em dois minutos faço em dez minutos, por estar conversando com cada amigo que encontro nas ruas. Também recebemos visitas de muitos amigos todos os dias, para pedir conselhos ou só bater um papo.


Ao princípio tínhamos a permanência (nome das tardes de jogos com as crianças) duas vezes por semana, atualmente estamos todo o tempo brincando, os dias que abrimos não mudaram, a mudança foi que já que não existe silêncio em nosso portão, devido as crianças que nos chamam até que saímos. Durante nossa rotina repleta tomamos um tempo para brincar um pouco, como os garotos sabem que muitas vezes estamos ocupados chegam pedindo para nos ajudar a cozinhar, limpar... Com os cipotes (gíria hondurenha para dizer crianças) pintamos o muro do nosso pátio, o que virou uma tarde de muitas risadas e tinta por todas as partes.


Dulce (filha da Rosi, de quem vos falei na minha segunda carta) chega todos os dias e todas as quarta-feira nos acompanha para fazer compras, algumas vezes para nos acompanhar no asilo, na missa. Estando com ela me sinto como uma grande mãe de família, que cuida da sua filha enquanto faz as tarefas da casa, e até se tornou frequente as pessoas me perguntarem se é minha filha. De noite, Rosi vende comida numa banquinha perto da nossa casa até as 23h e Dulce permanece sempre com ela, enquanto muitos dias passamos por lá para brincar com ela na rua.


Dois irmãos também passam bastante tempo conosco: Suyapa (nome em homenagem à padroeira de Honduras) de 9 anos e José Matias de 12 anos. Os dois sempre estavam nas permanências, mas não eram próximos aos missionários, talvez porque não são muitas coisas que agradam a Suyapa, e José é muito fechado, não expressa nada de carinho. Descobrimos que vivem apenas com a mãe, que chega do trabalho só pela noite e por isso os dois passam muito tempo sozinhos, então nos aproximamos mais deles e permitimos que passem mais tempo em nossa casa. José está sempre disponível a ajudar, bate a nossa porta perguntando “necessitam ajuda para cozinhar?” e no final da permanência diz “posso ficar mais para varrer?”.


No dia 06 de julho celebramos a festa de Santa Maria Goretti, a padroeira do Pontos Coração de Honduras, e para festejar tivemos uma grande missa com uma merenda e um teatro em nossa casa com muitos amigos do bairro. José chegou já pela manhã, ajudando a organizar tudo e pela tarde nos ajudou a fritar os pasteis. E claro que foi o último a sair, por sua grande ajuda queríamos abraçá-lo mas ele nos disse “não quero os piolhos de vocês”!


Mas não são só as crianças que carecem de presencia. Ha pouco tempo nos aproximemos de Mateo, 15 anos, o qual conhecemos através das visitas que fazemos a sua avó. Ao princípio, ele se mostrou um menino maduro e apaixonado pela música e arte, mas aos poucos fomos percebendo a grande solidão em que vivia, já que não possui amigos e passa muito tempo sozinho, resumindo sua vida em seu violão. Para mim é um pouco difícil falar sobre o Mateo, porque sua personalidade pode parecer normal como qualquer adolescente, mas aos poucos percebi sua grande tristeza e a necessidade de um amigo. Com ele visitamos museus e exposições e ele sempre encontra desculpas para nos visitar. Antes, ele nos dizia que a única coisa que importava era o seu violão, mas agora possui outra coisa: Pontos Coração.


Dentro das minhas cartas contei muitas coisas que aprendi com o povo hondurenho, e a cada vez aprendo mais. E hoje quero compartilhar sobre uma virtude tão presente aqui: a generosidade. A mesma que São Paulo encontrou nos Macedônios e escreve em sua segunda carta aos Coríntios “Em meio das provas e dos sofrimentos, há sido grande sua alegria e sua extrema pobreza tem proporcionado tesouros de generosidade. Posso afirmar que deram o que podiam, e mais do que podiam” (2Cor 8 1,9).



Me toca muito nossa família vizinha, que tem um mercadinho em sua casa. Todos trabalham: Reina, Nelson e os dois filhos deles, Gilberto (28 anos) e Alma (25 anos). O negócio da família não gera muitos lucros, mas todos os dias Reina prepara dois quente-frio grandes de café para dar a todos que batem na sua porta pedindo uma xicara. O almoço é sempre feito com muito carinho e abundância, porque aqueles que não possuem família e condições também são recebidos.


Hoje o dia, Reina se recupera de um câncer de mama que teve por um ano. Durante esse tempo acompanhamos ela para os tratamentos e cirurgias, e com todos seus problemas de saúde, sua fé crescia mais, nunca duvidando da misericórdia de Deus.

Alma é uma das nossas grandes amigas, uma vez nos contou todos os sofrimentos que passaram pela condição financeira, principalmente em sua adolescência, muitas vezes passaram fome e, a ela e a seu irmão foi oferecido o caminho que muitos de seus amigos optaram: o tráfico e a prostituição, mas o amor os salvou: “Apesar de faltar tudo, nunca nos faltou o amor e a fé, nos ensinando sempre escolher por uma vida digna, apesar de todas as dificuldades”.


Há três anos que Alma frequenta nossa casa com intensidade, ajuda nas permanências, participa das escolas de comunidade. Mesmo se ela era evangélica, com o passar do tempo não sentia que ali era o seu lugar. Para a Jornada Mundial da Juventude em Panamá ajudamos ela a arrecadar dinheiro e no fim da viagem nos disse: “A Igreja Católica é meu lar, muitos vão achar que me converti ao catolicismo por Pontos Coração, mas em verdade vocês foram apenas a luz para eu encontrar a verdade e a minha liberdade”. Agora sinto que temos uma missionária mais, porque, conciliando com a universidade, Alma nos acompanha nas missas dominicais, nas orações e apostolados.


E por último, quero apresentar a vocês Nicole (28 anos) a irmã mais velha de 5 irmãos. Ela se sentia responsável de cuidar de seus irmãos após a morte do pai quando ainda eram pequenos, assim ajudava sua mãe a vender comida e ingressou nas aulas de judô com o objetivo de defender sua família de qualquer perigo. Sua carreira como judoca teve grandes altos e baixos, já como profissional teve uma doença grave e sua recuperação foi considerada como um milagre, mas resultou dois anos sem praticar. Com muito esforços conseguiu voltar às competições e ao começo desse ano foi escolhida para representar Honduras nas próximas Olimpíadas. Mas durante um treino, ela sofreu uma fratura por causa da qual está impossibilitada de regressar a competir, terminando sua carreira profissional. Nicole resolveu continuar com o judô, dando aulas para crianças de baixo recursos, entre elas Suyapa e José Matias, sabendo que só o exemplo e o carinho são a esperança para tirar as crianças da vida das ruas.


Estar tão perto dos amigos e de suas pobrezas me ajuda a encontrar a Cristo. Estamos acostumados com as coisas grandes e assim deixamos a dependência de Deus. Jà os meus queridos amigos hondurenhos aprenderam a olhar para Deus como sua primeira e última saída, como Reina que nunca se desesperou por sua situação financeira, ao contrário ofereceu toda sua vida a Cristo e reconhece que tudo que possui é pela graça e assim se torna mais livre de compartir tudo com os que mais necessitam. E Nicole expressa sua gratidão pelo bem-estar da sua família e por sua cura, através da generosidade com as crianças.


Queridos padrinhos, meu compromisso inicial era de 14 meses, e a missão tem sido para mim uma grande experiência, descobrindo que a “felicidade consiste em dar tudo e dar a si mesma”, mas sinto o chamado de me doar ainda mais, por isso resolvi prolongar de três meses. Com todo meu coração e gratidão peço mais uma vez a ajuda de vocês, para que continuem colaborando com minha missão até fevereiro e seguiremos, juntos, dando mais frutos de amor e esperança.

Com grande amor,

Alicia


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